Fabulações, voos e sonhos
Um processo craquento de escrita e um convite especial para um voo poético e gelatinoso.

*se você ainda não viu a edição passada, clica aqui. essa cascata faz mais sentido se você viu/leu a última!
* glossário importante para você ler essa newsletter: água-viva (pt-br), alforreca (pt-pt).
Esta é a segunda parte da newsletter que mandei no último domingo (02.11), que foi excepcionalmente um filme. Como se as Cracas pudessem sonhar é o meu primeiro curta e foi apresentado no Festival Alkantara em Lisboa em 2023 durante a residência artística “E lá no fundo, o que é que tem?”, uma parceria entre Humusidades (Brasil), Aline Besouro, Ísis Daou e Terra Batida (Portugal).
O filme é fruto da residência de que participei com outros trinta artistas entre maio e outubro de 2023, um longo processo de contaminação de pensamentos e ideias que respondeu a uma chamada coletiva, “e lá no fundo, o que é que tem?”, e que teve um resultado também coletivo. Inclusive, o filme nasceu da minha parceria com o artista Orlando Vieira Francisco, o nosso trabalho intitulado Ecologias Imaginadas brotou dessa colaboração.
Resolvi trazer esse curta na Cascata#27 primeiro porque acredito que esse filme tenha um tom educativo, poético, elucidativo, fabulatório, imaginativo e seja uma ficção visual e poética que nasce de um mergulho profundo em outros universos. Eu gostaria muito de ver ele nas salas de aula (e de cinema!), nos festivais, nas ciências, nas artes, na poesia… Como se as cracas pudessem sonhar, pra mim, é sobre um desejo, uma faísca que escrevi num caderno em 2022 e nunca me esqueci: SEMEAR POETAS NA CIÊNCIA. Segundo porque já havia algum tempo eu estava querendo mostrar pra vocês esse filme de que gosto tanto e que representa muito do que tenho estudado, pensado, sobre o que tenho me debruçado ultimamente, mas tava esperando ver se ele passava em algum festival, o que ainda não consegui, e de repente, com os eventos no Rio de Janeiro nas últimas semanas, me deu vontade de jogar logo ele no mundo. E terceiro porque no dia 11.11.25 vou apresentar o meu segundo trabalho com fabulação especulativa no Porto: O voo surpresa das águas-vivas: uma repentina, na Comunoteca (Biblioteca Popular Pedro Ivo, Praça do Marquês), com curadoria da Nina Paim dentro da programação da Porto Design Biennale — e fiquei aqui pensando que com certeza não existiria o voo das águas-vivas sem o sonho das cracas.
Pra mim esses dois trabalhos se distanciam muito daquilo que tenho mais prática e facilidade na escrita: escrever em primeira pessoa — o que costumo fazer aqui na Cascata já há mais de dois anos. Essas duas fabulações-críticas-visionárias y poéticas são textos onde desenvolvo personagens muito distintos. Além de fazer falar os seres do mar — que foi algo extremamente desafiador, mas divertido —, neles eu pude colocar muito dos meus recursos de leitura e escrita dos últimos anos. Quem me acompanha de perto vai conseguir reconhecer por onde passamos ao longo dos textos. Como se as Cracas pudessem sonhar é um sonho de um grupo de cracas que é descoberto por uma pesquisadora, Beatriz González. E n’ O voo surpresa das águas vivas: uma repentina descobrimos, por meio da pesquisadora Marisol Inda Jani, fragmentos deixados por uma água-viva que realiza voos surpresa pela Terra para capturar humanos em casulos emocionais, criando encontros não programados sob o seu manto gelatinoso — as repentinas.
O mais interessante é que esses dois trabalhos, além de desafiarem a minha capacidade de escrita e imaginação, só existem porque fazem parte de um processo coletivo. As cracas vêm da residência, em que fui completamente contaminada pelas leituras que fazíamos, pelas conversas quinzenais, pelo material que íamos partilhando, as falas, exposições, a conversa entre Brasil e Portugal. E o texto d’ O voo surpresa das águas-vivas vem da proposta de curadoria da Nina Paim de fazer este lugar comum, a Comunoteca, um ponto de encontro no centro do Porto.
A água-viva tornou-se essa estrutura gelatinosa que quer abrigar no seu corpo encontro de pessoas que num mundo tão acelerado não conseguem se encontrar. Doido, né? Mas muito real. Escrevi o texto da água-viva grávida de oito meses, grávida de nove meses, tendo contrações, no puerpério, e tenho certeza de que essa condição de também ser casa-gelatinosa aparece na obra. O texto faz parte do livro Paralaxes: Histórias do comum (que está à venda aqui), que teve edição da Andreia C. Faria, e acompanha outros textos de escritoras que tanto admiro. No dia 11 de novembro, a partir das 18:30 vou fazer uma oralitura, uma leitura-performance d’ O voo surpresa das águas-vivas, uma repentina. Acho que vai ser lindo. Se você estiver por perto, não perca. Se não estiver, avise alguém que precisa desse casulo.
Bonus track
Um trecho do texto pra vocês conhecerem:
“Ao assistir durante décadas ao extermínio contínuo de suas irmãs viscosas, essa linhagem abissal começou a criar mecanismos internos de proteção.
Não armas militarizadas, como os robôs JEROS dispunham, mas estratégias emocionais, sensoriais, quase espirituais. Toda vez que um novo robô era enviado com a missão de descobrir, mapear, catalogar e classificar seres do mar profundo, essa alforreca compreendia tais gestos como sinônimos de destruição, aniquilação, extermínio, genocídio.”
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O Voo Surpresa das Águas-Vivas: uma repentina, Gabriela do Amaral em “Paralaxes: Histórias do Comum”, (org.) Andreia Faria. Porto: Porto Design Biennale, 2025.
Por hoje é só, porque foram dois domingos seguidos e não quero que enjoem de mim, rs.
Até a próxima!
Com cariño,
Gahbe





